Carta aos cotistas (Jan/16)

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“O homem não aspira à felicidade; somente o inglês o faz.” (Friederich Nietzsche)

O conceito de “efeito janeiro”

A literatura acadêmica descreve o chamado “efeito janeiro”, uma anomalia sazonal em que o preço de ações tenderia a subir no início do ano, quando investidores recomprassem papéis vendidos no ano anterior para evitar impostos. Se a hipótese era plausível em meados do século XX, quando postulada, não chegou a ser corroborada modernamente. Janeiro de 2016 foi marcado por mais quedas no preço do petróleo e o surgimento de novas trincas nas fundações da economia chinesa, dois temas recorrentes em 2015. Apesar de se recuperarem no final do mês, os mercados tiveram o pior início de ano desde 2009 – um efeito janeiro às avessas.

A China continuou a se defrontar com o problema de uma economia que, por uma década, cresceu extraordinariamente graças a maciças doses de crédito bancário e agora desacelera, vergada sob o peso da gigantesca bolha de crédito que (dialeticamente, diriam alguns) resultou desse processo de expansão. A proliferação de cidades fantasmas e fábricas ociosas finalmente convenceu a liderança chinesa da necessidade de transicionar de um modelo de crescimento baseado em investimento para outro, alicerçado em consumo interno (vale dizer, aumento da renda das famílias). Para que essa transição se dê suave e exitosamente, é fundamental manter crescimento suficiente para prevenir a eclosão de tensões sociais – sempre borbulhando sob a superfície de aparente tranquilidade, e colocando uma ameaça existencial ao regime. Simultaneamente, é necessário desalavancar a economia, trazendo a dívida (hoje acima de 200% do PIB, segundo estimativas conservadoras) para níveis sustentáveis, bem como sanear um setor bancário eivado de ativos podres. Um passo em falso nessa complexa engenharia econômica pode resultar em ruinoso colapso. Não por outro motivo, sejam tão extremas as reações a minúsculas pioras nos indicadores econômicos chineses ou flutuações no inexpressivo mercado acionário de Shanghai, como se viu em janeiro.

O petróleo, por sua vez, seguiu em sua longa derrocada iniciada em 2014, quando a exploração de xisto nos EUA produziu grande incremento na oferta. O barril do Brent, então cotado acima de $110, chegou a cair abaixo de $30 neste mês – nível muito abaixo do custo operacional da maioria dos produtores. O mais recente tombo resultou do fim das sanções econômicas ao Irã, evento que possibilitou o regresso deste grande produtor ao mercado global e, com isso, exacerbou a situação de sobreoferta. A queda do petróleo vem empurrando produtores à insolvência e faz crescer o temor de que, assim como o setor imobiliário na última crise, o petrolífero provoque grandes prejuízos a bancos e investidores.

Após as fortes quedas das três primeiras semanas, as bolsas globais acumulavam perdas percentuais de dois dígitos. Desenhava-se o pior janeiro em décadas. O que se seguiu foi um roteiro que, com pequenas variações, é recorrente desde a grande crise financeira de 2008: bancos centrais intervindo coordenadamente para desarmar o espiral viciosa de vendas, quedas e mais vendas. O BCE (Banco Central Europeu) anunciou a manutenção de taxas próximas a zero (e negativas, no caso de depósitos) e outro estímulo trilionário. O FED soltou comunicado dando pistas de que pretende moderar – senão abortar – o incipiente ciclo aperto iniciado em 2015. O BoJ (banco central do Japão) seguiu o exemplo de seus pares europeus e pespegou taxas negativas a seus depósitos. Paralelamente, sauditas e russos sentaram-se à mesa para discutir cortes na produção de petróleo. As bolsas reagiram com fortes altas para fechar o mês, senão em território azul, ao menos distante das profundezas visitadas semanas antes.

A consequência para o mercado doméstico

Esse conturbado ambiente externo repercutiu diretamente n o mercado local, sobretudo via a decisão do Comitê de Política Monetária (COPOM). Contrariando a expectativa de nove entre dez economistas, o Comitê manteve inalterada a taxa SELIC, em 14,25%. A decisão, tecnicamente justificável com base na penúria da economia, causou intensa polêmica por se chocar frontalmente à sinalização prévia do Banco Central – toda ela, na direção de elevação de juros. No primeiro dia de reunião o presidente do BC, Alexandre Tombini, publicou uma nota extemporânea sobre previsões econômicas recém divulgadas pelo FMI. Tombini manifestou particular preocupação com a previsão fortemente negativa (-3.5%) para o PIB brasileiro. A nota de Tombini surpreendeu, primeiro, por quebrar o protocolo de silêncio usualmente observado por membros durante o período de reunião do COPOM. Segundo, porque as previsões do FMI pouco acrescentavam às previsões igualmente sombrias de centenas de analistas brasileiros, consultados semanalmente pelo próprio BC. Não ajudou, tampouco, que Tombini tivesse se reunido com a presidente Rousseff, fora de agenda, à véspera de publicar sua nota – dando margem a suspeitas de ingerência política sobre uma decisão que deveria ser técnica. O mercado prontamente interpretou o gesto como recuo na intenção de elevar juros. Ao invés de 0,50%, como era esperado até então, passou a precificar apenas 0,25% de alta. Foi novamente surpreendido quando o COPOM anunciou a decisão de manter a taxa inalterada.

Desempenho janeiro de 2016: Fundo Visia Zarathustra

O fundo Visia Zarathustra FIM teve desempenho de 7,82% no mês. O destaque ficou para o modelo de juros que, após alguns meses de falsos sinais, capturou o forte movimento dos juros. Os modelos de volatilidade e cointegração também tiveram bons desempenhos. O destaque negativo ficou para o modelo de apetite a risco de S&P, que sofreu com o ambiente volátil para ações. Cabe ressaltar, como fizemos em diversas oportunidades ao longo de 2015, a baixa correlação entre o Zarathustra FI e o mercado como um todo. De fato, como em janeiro deste ano, o fundo frequentemente tem seus melhores resultados nos períodos de maior turbulência nos mercados. Com isso, se apresenta como instrumento ideal de diversificação e proteção de carteira. Nesse sentido, chamamos atenção para o equívoco de equacionar “risco” e “volatilidade”. Volatilidade pode ser oportunidade. Na medida em que seja risco, é o mais bem comportado dos riscos. O verdadeiro risco, aquele que pode ter consequências catastróficas, são as grandes perdas inesperadas, trazidas por eventos que habitam, ocultos, os extremos da distribuição.

Veja os dados consolidados do fundo

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