Carta aos cotistas (Abr/16)

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“Quem quer que considere o passado e o presente prontamente observará que todas as cidades e povos foram, desde sempre, animados pelos mesmos desejos e paixões; de sorte que seja fácil, pelo estudo diligente do passado, antever o futuro de qualquer república e aplicar os remédios usados pelos antigos ou, em não encontrando qualquer remédio por eles empregado, criar novos pela similaridade de eventos” (Discorsi, Niccolò Machiavelli)

Após longa e turbulenta gestação, o processo político que teve início em 2013 com a eclosão de protestos contra aumento de passagens, prosseguiu com sonoras vaias à presidente nos estádios durante a Copa de 2014 e desembocou nas grandes manifestações de rua de 2015 e 2016, chegou, enfim, ao seu apogeu com a votação do pedido de impeachment na Câmara neste abril de 2016. É certo que a atuação dos parlamentares ficou muito aquém da solenidade que exigia a ocasião. A sociedade brasileira, desacostumada a acompanhar os trabalhos da Câmara, assistiu a um espetáculo constrangedor de paroquialismo e pobreza retórica de seus representantes. Seja como for, o placar de 367 a 137 votos a favor do impeachment praticamente selou o fim do governo de Dilma Rousseff. O processo seguirá para o Senado, a quem cabe o julgamento e a decisão final sobre afastamento da presidente. Mas é amplamente esperado que o senado chancele a decisão da câmara e afaste a presidente ainda em maio. A presidente, talvez inconformada com a derrota que se afigura inevitável, acusa seus adversários –nos quais inclui seu vice – de orquestrarem um “golpe” contra seu governo. O pedido, carece, segundo ela, de embasamento jurídico uma vez que não haveria crime de responsabilidade –condição necessária para impeachment. Diversos ministros do Supremo Tribunal vieram a público refutar essa tese. Observam que o processo segue, rigorosamente, o rito determinado pelo próprio Supremo. Que cabe ao legilsativo julgar o mérito do crime de responsabilidade – para qual, de resto, são necessários 2/3 do plenário.para aprovar o pedido. Tudo em estrita observância da Constiuição, como há 24 anos por ocasião do impeachment de Fernando Collor – outro presidente impopular que presidiu sobre semelhante desastre econômico e cujo impeachment, vale lembrar, contou desde sempre com ativo apoio do partido da presidente.

Enquanto o processo tramita no legislativo, o vice-presidente Michel Temer, sucessor ao cargo em caso de afastamento da titular, se ocupa de montar o gabinete ministerial que assumirá caso se confirme o impeachment. Fala-se de uma equipe de “notáveis” dentre os quais figuram Henrique Meirelles, ex-banqueiro central no governo Lula e hoje na banca privada, e o renomado senador tucano José Serra. É certo que o eventual novo gabinete terá perfil ortodoxo em política econômica e muita experiência na articulação política (essencialmente, o contrário do gabinete de Rousseff até aqui). Emissários de Temer cuidam de sinalizar ao mercado e à imprensa que austeridade fiscal estará no topo da agenda do novo governo: o cardápio de medidas no instante zero incluiria corte de despesas de custeio, redução de investimentos, demissões de funcionários não-concursados e eliminação de ministérios redundantes – tudo para que seja possível evitar ter de aumentar impostos. A esses ajustes na administração das contas somar-se-iam medidas ambiciosas de alcance estrutural, como a retomada do programa de privatizações e a reforma da previdência. É evidente que, nesse momento em que um governo Temer não passa de conjectura (ainda que provável), qualquer previsão é obscurecida por incerteza. Após a temporada no inferno político e econômico de 2015, é possível que se esteja agora incorrendo em excesso de otimismo. Anos de má gestão levaram a uma situação crítica que não será fácilmente revertida. Mas é certo também que a mera superação do atual impasse político, aliado à mudança no discurso e prática, tem potencial de produzir forte choque positivo nas expectativas que, por si só, sopraria nova vida à moribunda economia brasileira.

As notícias no front econômico foram, infelizmente, mais do mesmo: desemprego e déficit públicos em níveis recordes (10,2% em abril e R$10,6 bi em março, respectivamente) e forte recuo na atividade enquanto o governo permanece paralisado, à espera de um desenlace na crise política. O Banco Central, em sua reunião de Política Monetária de abril manteve a taxa SELIC inalterada em 14,25%. Apesar do recuo na inflação corrente e nas expectativas de inflação futura, o BC descartou cortar juros. Ao fazê-lo, interrompeu o processo de queda das taxas de mercado e, por tabela, fez com que nossos modelos encerrassem posições com pequena perda. Enquanto jogava água fria nos juros, o BC recomprava dólares agressivamente– mais de US$20 bi numa semana, apetite não vista desde os bons tempos do início do primeiro mandato de Dilma Rousseff quando o futuro era promissor e o Real era a moeda predileta de 10 entre 10 investidores. Apesar da mão pesada do BC, o dólar fechou o mês em queda de pouco mais de 3%, movimento do qual se beneficiaram os modelos do Zarathustra. Os demais modelos tiveram desempenho que variaram entre modesto e negativo, levando o retorno mensal a +0,88%.

Veja os dados consolidados do fundo

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