Carta aos cotistas (Jun/16)

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“Unreal City, Under the brown fog of a winter dawn, A crowd flowed over London Bridge, so many, I had not thought death had undone so many.” (The Waste Land, T. S. Eliot)

O imbróglio político brasileiro, com seus múltiplos tentáculos jurídicos, econômicos e policiais, chegou em junho à soleira do PMDB, partido do governo interino. Delações colhidas pela Lava-Jato (e vazadas à imprensa) revelaram propinas milionárias pagas a decanos do partido, alguns bastante próximos do presidente Temer. A queda de outro ministro suspeito de envolvimento em desvios – o terceiro, em dois meses – expõe a fragilidade de um governo cujo partido foi sócio júnior em atos de improbidade que derrubaram a gestão anterior. As revelações chegaram mesmo a reacender uma (tênue) fagulha de possibilidade de retorno da presidente afastada (alguns propuseram reconduzi-la ao cargo sob compromisso de antecipar eleições). Tampouco arrefeceu a crise das contas públicas: a pretexto de acumular capital político para aprovar reformas no congresso, o governo fez generosas concessões – moratória na dívida de estados, empréstimos de emergência, reajuste do funcionalismo e aumento nos programas de transferência de renda – que, somadas, montam à casa da centena de bilhão de reais ao longo do próximo ano. Por negativo que estivesse o noticiário local, contudo, pouco abalo produziu nos mercados. A fé na capacidade do governo entregar as sonhadas reformas se mantém, aparentemente, inabalável. O evento de maior repercussão em junho, eclipsando qualquer notícia ou fato doméstico, veio de fora e, à primeira vista, pouca relevância teria para os rumos da economia ou mercados no Brasil: a inesperada decisão do Reino Unido, tomada em plebiscito, de deixar a União Européia.

Se o comércio do Reino Unido é pequeno demais para afetar significativamente a economia global e, particularmente, países emergentes como o Brasil, sua saída da União Européia é repleta de simbologia. A interpretação mais sombria do “Brexit” é a de um retrocesso populista, o triunfo do nacionalismo isolacionista e xenófobo sobre o projeto de integração política, construído sobre os escombros de duas guerras devastadora. Sob essa ótica histórica, é notável e irônico que a rejeição do ideal de uma Europa unida, próspera e pacífica tenha ocorrido justamente no centenário de uma das mais sangrentas batalhas da história européia, a Ofensiva do Somme lutada nas trincheiras do norte da França durante a primeira Primeira Guerra Mundial (quase vinte mil soldados britânicos pereceram nas primeiras horas de combates; o saldo, ao cabo de cinco meses, era mais de um milhão de mortos e feridos entre britânicos, franceses e alemães e praticamente nenhum ganho territorial). Uma segunda interpretação, não necessariamente excludente, é a de que o voto foi expressão de um profundo descontamento de parcela da populaçao excluída dos ganhos trazidos pela integração, globalização e abertura de mercados das últimas duas décadas – os 99% que não frequentaram Oxbridge, não trabalham na City nem podem pagar os altos aluguéis de Londres. Qualquer que seja a verdade, o risco claro é de que a eventual saída da Grã-Bretanha (a decisão terá depassar pelo Parlamento) seja seguido por outras nações e precipite um movimento que, no extremo, desemboque no esfacelamento da União Européia.

O dia 24 de junho, dia seguinte ao “Brexit” foi um dos mais voláteis da história nos mercados de câmbio (a libra esterlina caiu mais de 10%) mas o tumulto foi relativamente breve. As moedas do G-10 se estabilizaram no segundo dia e, no terceiro, os mercados começaram a se recuperar. O real, que chegara a perder mais de 3% no Brexit, acabou retomando a trajetória de fortalecimento para fechar o mês com valorização de mais de 10% ante o dólar. Contribuiu para isso a mudança de postura do Banco Central – agora sob nova direção – menos propenso a intervir no mercado cambial. Os juros tiveram forte queda no início do mês com especulação de que o Banco Central estenderia para 2018 o prazo de convergência da inflação à meta, bem como uma inflação surpreendentemente benigna em maio, de 0,40% (que motivou, inclusive, declaração do presidente de que esperava redução nos juros até o final do ano). Esse melhora no sentimento foi abruptamente revertida com a divulgação do Relatório de Inflação, em que o BC reafirmou propósito de levar a inflação à meta ainda em 2017, jogando água fria nas expectativas de cortes de juros no segundo semestre de 2016. Finalmente, especulação de que o CMN revisaria para baixo a meta de inflação de 2018 fez dispararem os juros nos últimos dias do mês (a revisão acabou não se confirmando). A bolsa, ativo que mais havia sofrido com o ruído político do começo do mês, conseguiu se recuperar na esteira das bolsas globais.

Para o Zarathustra FIM junho foi um mês desafiador com a forte volatilidade dos mercados pondo à prova os modelos de tendência. De fato, estes saíram do vermelho apenas no final do mês com o rally pós-Brexit. Os modelos de reversão à média e opções, contudo, em geral tiveram bom desempenho e ajudaram a atenuar a volatilidade da cota do fundo. Com isso, o mês fechou com um retorno positivo de 2,22% e 18,93% acumulado no primeiro semestre, equivalente a 282% do CDI.

Veja os dados consolidados do fundo

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