Carta aos cotistas (Dez/16)

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“E no meio de um inverno eu finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível.” (Albert Camus)

Retrospectiva do ano de 2016

UMA RETROSPECTIVA DO ANO DE 2016 no Brasil deve começar, necessariamente, em dezembro de 2015. Naquele momento a economia brasileira entrava em colapso, nos estertores de uma crise fiscal que irrompia em toda sua virulência depois de anos sendo escamoteada pela contabilidade criativa do governo. Joaquim Levy, o homem incumbido onze meses antes de desarmar a bomba, deixava o Ministério da Fazenda em ignomínia, tendo colecionado fracassos. O prometido superávit primário de 1% do PIB se revelara, antes, um déficit de 2%; sucessivos rebaixamentos da nota de crédito do Tesouro haviam conduzido à perda do grau de investimento – o cobiçado selo de aprovação que coroara anos de esforço fiscal e um símbolo festejado das gestões petistas. A inflação rompera o teto da meta e – fato inédito desde a estabilização – fechara o ano em dois dígitos. Naquele fatídico mês de dezembro o vice-presidente Michel Temer cruzava seu Rubicão pessoal com uma carta à presidente Dilma Rousseff. Na carta, formalizava a ruptura de seu partido com o governo. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, acatava o pedido de impeachment pondo em marcha um processo que, oito meses depois, culminaria no afastamento da presidente (a Carta aos Investidores de dezembro de 2015 trazia a ilustração de um tabuleiro de xadrez com um xeque-mate em 5 lances, prenunciando tal desfecho: Carta Dezembro 2015). Os mercados não ficaram alheios a esses eventos: o ano de 2015 terminou com o dólar 47% mais caro, a taxa de juros de um ano 300 pontos-base mais alta e o índice Bovespa com 13% de perda. Em meio a uma tempestade política e à pior crise econômica em décadas, esta Carta proclamava 2015 o Annus Horribilis brasileiro.

Doze meses de travessia depois e a Terra Prometida – o fim da recessão, iniciada no segundo trimestre de 2014 – teima em não despontar no horizonte (a expectativa é que o crescimento retorne no segundo semestre de 2017). Em dezembro de 2016 a angústia ainda é visível nos semblantes dos brasileiros. A troca de governo em agosto havia desencadeado uma mini-onda de otimismo que, no entanto, murchou, sobrepujada pelo mergulho vertiginoso da economia. Entre muitas estatísticas sombrias, 2016 malogrou queda de 9% na atividade industrial, 10% nas vendas do comércio varejista e viu o desemprego bater 12%. Empresas agonizaram espremidas entre dívidas crescentes e receitas cadentes. O setor público continuou a verter sangue e a situação financeira dos estados se tornou calamitosa. O novo governo, tal qual o velho, se viu acuado pelas investigações da Lava Jato e crescente rejeição pública. Índices de confiança, o burburinho das redes sociais e conversas de bar indicam, para além de qualquer dúvida, que o sentimento desceu a profundezas abissais.

Com um pouco de esforço, contudo, é possível perceber sinais – tênues ainda, mas inequívocos – de melhora na paisagem política e econômica. A mais notável é a aprovação no Congresso, por folgada maioria, do Projeto de Emenda Constitucional 55 – a “PEC do Teto”. A emenda congela o gasto público por 20 anos, depois de uma década crescendo 3% ao ano em termos reais (link). Impõe, dessa forma, forte disciplina orçamentária ao setor público – restrição que fora gradualmente abandonada nas administrações Rousseff – e, ao fazê-lo, força a sociedade a realizar trade-offs entre demandas que competem por recursos escassos. Quer aumentar o investimento público em infraestrutura? Para não aumentar o gasto total, tem de cortar gasto com previdência. Quer reajustar funcionalismo? Precisa reduzir transferências a famílias. E assim por diante. Até então a alternativa escolhida era, invariavelmente, “todas as anteriores” e acomodada via aumento da dívida pública (isto é, empurrando-se a conta para as gerações futuras). A recorrência dessa prática colocou a dívida em trajetória insustentável. Não por acaso, as taxas de juros brasileiras persistem entre as mais altas do mundo, mesmo após três anos de recessão. A PEC promete pôr fim a essa dinâmica. É um marco na governança pública comparável à Lei de Responsabilidade Fiscal. Uma consequência imediata é forçar uma reforma da Previdência uma vez que, sem reforma, não é possível zerar o crescimento do gasto. Reformar a Previdência é imperativo não apenas para higidez das contas públicas, mas para viabilizar a economia brasileira, que verga sob uma carga tributária insuportável – outra consequência nefasta do elevado nível de gasto público. A PEC que reforma a Previdência começou a tramitar no congresso em 2016 e deve ser votada no primeiro semestre de 2017. Até na economia há sinais auspiciosos: nos últimos meses do ano a inflação desceu ao menor nível em uma década e deve terminar 2016 ligeiramente abaixo do teto da meta (pouco mais de metade do que foi em 2015). A expectativa para inflação de 2017 caminha para o centro da meta, permitindo ao Banco Central acelerar redução da taxa Selic. O mercado captou a melhora: a taxa de um ano – que, ao fim de 2015 beirava 16% – desabou e terminou 2016 abaixo de 12%, feito tanto mais impressionante quando se considera que as taxas de juros no mundo inteiro explodiram com a vitória de Trump (Carta Novembro 2016). Mesmo com crise política, “delação do fim-do-mundo”, Trump e Brexit, o dólar encerrou 2016 cotado a 3,25 – 18% abaixo de onde iniciou.

Em conclusão, é inegável que 2016 será lembrado como um ano amargo e difícil, sobretudo para empresários que enfrentaram o terceiro ano de recessão profunda. Mas seria tolo negar os avanços na governança pública e os progressos na gestão econômica. O governo Temer, como seu antecessor, é impopular e maculado na origem pela corrupção. Diferente do antecessor, não pode ser acusado de inábil politicamente. Não se sabe se chegará ao fim do mandato mas, se aprovar as reformas, já terá conquistado um lugar na história.

Desempenho dezembro de 2016: Fundo Zarathustra

No mês de dezembro o fundo Visia Zarathustra FIM rendeu 2,75% impulsionado, sobretudo, pelos desempenhos positivos dos modelos de juros e intradiário de dólar. Fechou o ano com retorno positivo de 20,95%.

Veja os dados consolidados do fundo

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