Carta aos cotistas (Abr/17)

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“E plubirus unum” (Virgílio)

Em abril o novo governo dos Estados Unidos completou 100 dias. A marca é arbitrária, de duvidoso valor simbólico e, de resto, breve demais para qualquer avaliação séria. Nada disso, no entanto, impediu que se derramassem rios de tinta sobre a efeméride. O destaque reflete mais do que mera fixação com números redondos: os primeiros quatro meses da administração Trump oferecem pistas para se desvendar as implicações para o mundo – e eventual significado para futuro – de um governo sem precedentes na história recente americana.

O que faz, deste, um governo singular não é apenas seu desprezo por protocolo (o primeiro presidente a não tornar pública suas declarações de renda, conduzir diplomacia por twitter, delegar funções de Estado a familiares), a imprevisibilidade (uma longa lista de meias-voltas), a dissonância administrativa (facções rivais em feroz disputa por poder), suas perigosas ligações com potências estrangeiras ou mesmo seu apreço por “fatos alternativos”. Que ninguém se iluda: estas características, quando endêmicas no comando da maior potência bélica e econômica do planeta, podem ter consequências catastróficas e inspiram justificado temor. Até agora, porém, seu maior efeito foi apenas paralisar o governo num atoleiro de inépcia. Não, o significado de Trump transcende o discurso raivoso e caótica prática política do dia-a-dia.

Fundamentalmente, Trump coloca dois graves desafios existenciais à ordem global: primeiro, um desafio aos valores liberais democráticos do Ocidente. Não, como sugerem alguns analistas de forma um tanto naïve, por ação direta. No que pese a vocação autoritária, Trump está bem longe de uma clássica figura fascista, tampouco almeje um Estado no molde fascista. A começar pelo fato de que, apesar da claque de ideólogos que o cerca, parece haver pouca genuína convicção ideológica sob a fachada extremista. De fato Trump habita uma bolha amoral e ahistórica, sem um núcleo de valores ou visão de mundo que orientem sua política (o que explica a incoerência de sua política externa). Como estadista, sua mentalidade é antes a de um magnata imobiliário para quem governar consiste numa série de transações, “fechar negócios”, extrair vantagens de parceiros e intimidar rivais num grande jogo de soma-zero. Sua ação corrosiva sobre os valores democráticos se dá de forma mais sutil e nefasta: violentas diatribes contra o estabelecimento político, elogio a déspotas, uma incessante campanha contra a imprensa, elites culturais e a comunidade científica – surrados bordões de ultraconservadores que, até Trump, estavam confinados às margens do espectro ideológico.

O segundo desafio é à ordem geopolítica global constituída no pós-guerra sob a égide dos próprios Estados Unidos. Esta ordem, que por sete décadas garantiu a estabilidade e paz mundial, vem sofrendo desgaste interno: seja por tensões políticas de movimentos nacionalistas, insuflados por crescente sentimento anti-imigração (e agravado pela ameaça terrorista), seja pela sucessão de crises financeiras que minam crescimento econômico. E sofre desafios externos, sobretudo da Rússia e China, potências com aspirações globais próprias, e potências regionais como Irã, que nutre pretensões hegemônicas sobre o Oriente Médio – além do “rogue state” Coréia do Norte, que ameaça dinamitar (literalmente) o frágil equilíbrio no leste asiático. Os EUA, cujo poderio militar supera o de todas as nações acima somadas, têm sido principal mantenedor dessa ordem e maior obstáculo à ambição dos demais postulantes a superpotência. A política externa articulada pela administração Trump, contudo, acena com uma guinada isolacionista (encapsulada no slogan “America First”). Ao mesmo tempo em que busca dramática expansão do orçamento militar, propõe um recuo do palco global que seria, para todos efeitos, uma estaca no coração da ordem mundial liberal.

Trump, claro, é sintoma e não causa da crise. Populismo-nacionalista, fenômeno do qual é expoente, certamente não é novo e, em sua atual encarnação, inclui Brexit, Marine Le Pen e demais manifestações nacionalistas na Europa. Tende a eclodir em redutos politica e economicamente atrasados, como a América Latina (onde, ironicamente, hoje está em recuo) ou durante períodos de aguda convulsão social, como o entre-guerras na Europa. Em que pese o fortalecimento de partidos nacionalistas na Europa e o surgimento do Tea Party nos EUA na última década, até ontem as democracias avançadas do Ocidente pareciam relativamente imunes ao vírus populista. Os grandes partidos tendiam a ser moderados e a se aglomerar, ideologicamente, próximo ao centro. Radicais poderiam conquistar assentos no legislativo, mas, capturar o executivo federal, estava fora de seu alcance. Trump, um outsider sem qualquer experiência política, subverteu esta crença passando como trator por todos seus adversários (de ambos partidos, membros experientes do estabelecimento político), destilando virulenta retórica que combinou nacionalismo, xenofobia e isolacionismo em graus considerados inaceitáveis para um candidato presidencial. Chegou à Casa Branca explorando o poço profundo de ressentimento de uma fatia do eleitorado –  os excluídos da globalização, as vítimas do declínio industrial e da inovação tecnológica, cujos (outrora bem-remunerados) empregos foram eliminados ou exportados e cuja renda, definha há três décadas. Uma demografia sobretudo branca, de baixa instrução e socialmente conservadora oriunda de regiões interioranas e rurais (o “heartland”), e que ora afoga seu rancor em extremismo político, álcool e opioides (“Hillbily Elegy” de J. D. Vance, publicado em 2016, um retrato autobiográfico, se tornou referência para entender essa demografia e a ascensão de Trump). A estes, Trump prometeu uma longa lista de objetos-do-desejo: muralhas contra mexicanos (“estupradores e traficantes”), barreiras à entrada de muçulmanos (“terroristas”), reabertura de minas (“fim da guerra ao carvão”), “repúdio e substituição” de Obamacare (por algo “tremendamente melhor e mais barato”), endurecimento das relações com a China (“o maior manipulador de câmbio do planeta”), anulação do NAFTA (“o pior acordo de todos os tempos”) e “drenagem do pântano” político em Washington DC. Tudo servido com fartas doses de fel contra as “elites” cosmopolitas – com seu execrado multiculturalismo, sua correção política e sua imprensa disseminadora de “notícias falsas”.

Apesar de todo barulho, Trump pode se revelar um tigre de papel, um bufão ineficaz ou indisciplinado demais para implementar as políticas verdadeiramente ruins que pregou no palanque. Sua chegada ao poder, contudo, abre um grave precedente: as democracias avançadas do Ocidente não estão mais imunes à captura por demagogos e aventureiros. Se o mundo sobreviver a Trump, a próxima encarnação de líder populista poderá ser a derradeira.

Em abril a estratégia Zarathustra rendeu 1,18%, com destaque para o modelo de tendência de juros, de opções e os diversos modelos de reversão à média, enquanto os modelos de câmbio tiveram resultados em geral negativos.

Veja os dados consolidados do fundo

2 comentários

  1. ” Populismo-nacionalista, fenômeno do qual é expoente, certamente não é novo e, em sua atual encarnação, inclui Brexit “.
    I feel that I must disagree with the reason you give for Brexit. It was not a vote for populist and xenophobic policies or politicians. On the contrary it was a democratic vote for the return of self determination, in the face of an ever growing, anti democratic, unelected bureaurocracy that refuses that diferent members may have diferent views. The EU’s vision is for a united states of Europe, run by a vast , unelected, and unaccountable civil service. It is not the wish of the British people.
    Eu gostei do resto do artigo, especialmente o livro que voce recomendou. Ja comecei a ler.

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    1. Andrew,

      I am aware of and acknowledge esta outra interpretação do Brexit (inclusive, hesitei em inclui-lo no parágrafo citado por este motivo). Por outro lado, há Ukip e Farage que more-or-less fit the nationalist narrative. E amigos ingleses relatam uma explosão de incidentes de racismo (em Londres!), na esteira do Brexit. Então não me parece impróprio incluir Brexit, talvez com caveat de que é mais nuançado do que Le Pen et al.

      Obrigado pelo comentário!

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