Carta aos cotistas (Jun/17)

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“Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate” (Inferno, Dante Alighieri)

NA VIRADA DO SEMESTRE o ânimo dos brasileiros atingiu profundezas abissais. Referimo-nos, bem entendido, à grande maioria que não recebe supersalários no serviço público, cujos negócios não são turbinados por empréstimos subsidiados, que não têm direito à aposentaria aos 50 e que, demitidos de empregos com carteira assinada, são forçados a cavar uma subsistência na informalidade. A esperança de superar a longa recessão, acalentada pelo andamento das reformas e incipiente retomada de atividade, foi brutalmente estilhaçada pelos eventos do mês de maio. Munido da delação do empresário Joesley Batista, o Procurador Geral da República Rodrigo Janot se pôs a apertar o torniquete em torno do presidente Michel Temer de forma implacável. A PGR não produziu, até o momento, prova contundente – a chamada “arma fumegante” – contra o presidente. Mas a proximidade de Temer aos que já caíram na rede da PGR o compromete mortalmente. Ainda que consiga prolongar a agonia até o fim do mandato, será como pato manco, refém de um Congresso que cobra fatura alta em fisiologismo (o governo faz concessões a estados e acena com diluição das reformas). Mortalmente ferido, mas ainda vivo, Temer retalia como pode: questiona os termos da delação, a validade das provas e denuncia a atuação política da PGR. As acusações de Temer não são inteiramente improcedentes. Muitos observadores questionam a imparcialidade de Janot, cujo zelo persecutório parece seletivo. Feroz na caça a Temer e seus asseclas, Janot demonstra menos sanha contra outras figuras com papel igual, senão maior, no escândalo de corrupção – notavelmente ausente da delação de Joesley está o ex-presidente Lula da Silva, sob cujo governo o açougueiro de Goiás se tornou bilionário graças a maciços investimentos do BNDES (Lula aproveita a trégua da Lava Jato para se lançar candidato à presidência, para qual lidera pesquisas provando que a melhor defesa é, de fato, o ataque). Após denúncias da PGR, os índices de rejeição a Temer superaram até os de sua odiada antecessora, mas, diferente do que ocorreu no governo de Rousseff, fracassaram as tentativas de mobilizar grandes protestos contra o governo. Se por um lado rejeita Temer, a população não se entusiasma pelas causas da oposição, como antecipar eleições. Nas redes sociais, é grande a indignação com a benevolência do acordo com que Janot agraciou Joesley. O corruptor confesso de milhares de deputados sai impune de todo imbróglio.

Como se observou sobre o Rio de Janeiro, o Brasil parece encoberto por uma mortalha. Difícil acreditar que, não faz dois meses, havia otimismo beirando euforia no ar. Se há algum consolo, talvez seja de que o momento é rico em material para reflexão e oferece oportunidade para um grande exame de consciência nacional.

Não faltará inspiração ao cronista ou analista político que caminhem, tal Dante e Virgílio modernos, por entre as ruínas do governo Temer. Cronistas enxergarão paralelos entre os infortúnios de Temer e a tragédia do Rei Macbeth. Contemplando a guerra fratricida entre PT e PMDB, perceberão ecos da desintegração da corte de D. João 6º. O Terror e a Reação Termidoriana servirão de conto precaucionário contra os excessos messiânicos da Lava Jato. Periciando os escombros da economia, o colapso dos investimentos e a incerteza no horizonte político, analistas traçarão cenários funestos. O Brasil é uma “ilusão de ótica”, vaticinarão alguns. O “futuro está cada vez mais distante”, decretarão outros. Difícil discordar. A situação fiscal seria precária ainda que as reformas fossem aprovadas em suas versões originais. Agora que estão por um fio e ameaçadas de diluição, o horizonte se torna um pouquinho mais negro.

De fato, com as contas públicas cronicamente no vermelho, endividamento crescente e estados em situação calamitosa, o país retrocede dois anos, a 2015, quando o colapso do plano de Joaquim Levy deflagrou a primeira grande crise fiscal e levantou temores sobre sustentabilidade. Mesmo os mais pessimistas, contudo, enxergam algumas atenuantes em relação àquela conjuntura: pela primeira vez, desde 2008, a economia atravessa uma crise num ambiente deflacionário, permitindo ao Banco Central continuar afrouxando a política monetária. Dois fatores preponderam para isso: primeiro, o fato de que nesta crise também os bancos públicos – sobretudo o BNDES – arrocham crédito. O significado prático disto é não replicar a política esquizofrênica dos tempos de Dilma Rousseff, quando o Banco Central apertava o pedal do freio enquanto os bancos públicos pisavam no acelerador (quando a política é contracionista, a inflação cai, quem diria?!). O outro fator é a balança comercial fortemente superavitária (os investimentos estrangeiros também têm surpreendido positivamente; embora a parcial de junho indique déficit no IDE – causado, certamente, pela turbulência de maio – os estrangeiros têm demonstrado notável resiliência a escândalos). A entrada de dólares estabiliza a cotação e desarma pressões inflacionárias. Não pela primeira vez em sua história, o Brasil poderá ser salvo pela inesgotável riqueza de sua agricultura.

A estratégia Zarathustra fechou o mês de junho com -0,05%, com destaque positivo para os modelos de tendências de juros, reversão à média de ações e volatilidade. Os destaques negativos foram os modelos ligados a câmbio, tanto em moeda quanto juros, que sofreram com os ziguezagues do dólar. O resultado acumulado no semestre ficou em 1,48%, fortemente impactado pela perda do mês de maio. Conforme detalhado na carta de maio, o movimento extremo do dia 18 daquele mês nos levou a rever a alocação de modelos na carteira do Zarathustra e alterar alguns parâmetros de risco. Estas mudanças não alterarão as características boas do fundo, como sua baixa correlação com os índices de mercado, a convexidade da distribuição de retornos e propensão a performar positivamente em ambientes de turbulência. Deve, porém, mitigar o risco de perda com gaps e reduzir a volatilidade do fundo marginalmente. Como afirmamos em maio, uma das vantagens da metodologia quantitativa é a possibilidade de incorporar novos dados à experiência, utilizando-os para atualizar premissas bayesianamente. Como diria o profeta Zarathustra, “o que não nos mata nos faz mais fortes”.

Veja os dados consolidados do fundo

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