Carta aos cotistas (Jul/17)

Postado por

“Porque um homem que deseja professar o bem em toda circunstância acaba corrompendo-se em meio a tantos que não são bons. ” (Maquiavel)

SE A PRIMEIRA METADE de 2017 chegou ao fim de forma melancólica, em meio ao desarranjo político e perplexidade geral provocados pela delação de Joesley Batista, a segunda começou com um estrondo. Os mercados, esses termômetros do espírito animal, terminaram o mês com resultados impressionantes: o real se valorizou 4% frente ao dólar, retornando à cotação pré-delação, enquanto o índice Bovespa subiu sólidos 5%, chegando próximo ao patamar pré-crise. Preços em queda (julho teve a primeira deflação em mais de dez anos) e expectativas cadentes de inflação permitiram ao COPOM realizar o sétimo corte consecutivo na taxa SELIC que, após quatro anos, retornou a um dígito. Menos apreensivo com eventuais repercussões da crise política, o Banco Central abandonou o tom de cautela e voltou a sinalizar luz verde para o afrouxamento. A inflexão no discurso derrubou a curva de juros, que terminou o mês abaixo mesmo do patamar pré-crise. Na arena política a agenda de reformas ganhou novo fôlego com a aprovação da Reforma Trabalhista. Até a Reforma da Previdência, dada como morta, foi ressuscitada. É provável que seja mutilada no processo de barganha no congresso – governo fraco paga mais pedágio – mas os mercados escolheram celebrar o copo meio cheio.

Que diferença faz um mês. Quando, em meados de junho, a Procuradoria Geral da República (PGR) denunciou Michel Temer por crime de corrupção passiva com base em delações, uma gravação feita na calada da noite e a prisão de um assessor flagrado recebendo uma mala de dinheiro – o governo Temer fora dado, para todos os efeitos, como enterrado. Aliados aconselhavam o presidente a renunciar enquanto tramavam abertamente sua sucessão. A oposição saboreava a oportunidade de dar o troco nos “golpistas” e, de quebra, subir nas pesquisas. Editoriais traziam o obituário do governo. Castigado pela mídia, massacrado pela oposição e desprezado pela opinião pública Temer era o retrato de um homem no cadafalso, à espera da execução. Ainda que sobrevivesse à campanha por seu afastamento seria, na melhor hipótese, um pato manco pelo restante do mandato.

Se Temer era dado como carta fora do baralho, ninguém se lhe haveria de negar o agudo faro político e extraordinária capacidade de articular. Estas virtudes seriam empregadas com grande eficácia a serviço da própria sobrevivência. Temer canalizou o enorme ressentimento popular contra a figura do “bandido notório” Joesley Batista, e o descontentamento com os generosos termos de seu acordo de delação, para atacar a credibilidade de seu algoz, Rodrigo Janot. Em seguida, acionou seus operadores no congresso para, seguindo a longa tradição de clientelismo da política brasileira, abrir o balcão de negócios. Emendas, liberação de verbas, alívio a estados e reajustes de funcionalismo foram algumas das “bondades” concedidas em troca da rejeição da denúncia contra Temer no congresso.

Maquiavel ensina em O Príncipe que se pode chegar ao poder por dois caminhos: o da Fortuna (no sentido de acaso ou sorte) e o da destreza – o que ele chamava de “virtude” ou virtù (que não deve ser confundida com virtudes cristãs). É possível chegar ao poder pelas graças da Fortuna mas, para se manter no poder, virtù é imprescindível. A história da ascensão e queda de Dilma Rousseff ilustra esse ensinamento. Dilma chegou à presidência na onda da imensa popularidade de seu antecessor, Lula. Não era particularmente hábil nas artes da política, tampouco dotada de excepcional competência técnica ou capacidade de gestão. Mas quis a Fortuna que, naquele momento, tivesse algo muito mais precioso: a condição de única remanescente dos múltiplos escândalos que abateram, um a um, os postulantes naturais à sucessão de Lula. Lula, no seu auge, se gabava ser capaz de eleger um poste. Eleita, Dilma não demorou a demonstrar habilidades de poste. Antagonizou toda classe política com seu estilo arrogante e autoritário. O Príncipe deve buscar o apreço dos súditos; se tiver de escolher entre ser amado e temido, deve optar pelo segundo; temido ou não, o Príncipe virtuoso deve cuidar de jamais se tornar odiado, ensina Maquiavel. As manifestações populares contra o governo de Dilma começaram em 2013, antes mesmo das investigações da Lava Jato ou da derrocada econômica e cessaram apenas com seu impedimento, três anos depois. Temer, presidente mais impopular desde Collor, não obstante conseguiu evitar o ódio dos cidadãos (de fato, as inúmeras manifestações convocadas contra seu governo foram constrangedores fiascos). Quando foi a vez de Dilma subir ao patíbulo, como Temer hoje e Lula, antes dela, também abriu o balcão de negócios. Diferente de Lula e Temer, obteve sequer míseros um terço de votos que a livrariam da degola. Desgastada por recessão e escândalo, rompida com o PMDB, Dilma foi abandonada pelo parlamento. O prego no caixão de seu governo, contudo, foi a rejeição popular – o ódio que despertou na sociedade.

Quando o assunto é inabilidade política e ameaça de impeachment, não se pode deixar de mencionar o circo de horrores em que se transformou a Casa Branca. A dinâmica que lá se instalou em tudo se assemelha à agonia do governo Dilma, com gafes e escândalos se sucedendo em ritmo crescente. A última revelação foi de que filho, genro e assessores do então candidato Trump se reuniram com operadores russos para receber informações comprometedoras sobre a rival Democrata. Para uma administração atormentada pela suspeita de conluio com o Kremlin, a notícia caiu como uma bomba. Com espantoso desleixo, Donald Jr. deixou um rastro de e-mails comprometedores que, se não provam o conluio em si, eliminam qualquer dúvida sobre a intenção de conluio e fornecem combustível para aprofundar as investigações ora em andamento. Não bastassem os seus problemas legais, a Casa Branca serviu de palco a uma ópera-bufa que constrangeria repúblicas de banana ou Silvio Berlusconi. Referimo-nos à nomeação, e posterior demissão meros dez dias depois, de Anthony Scaramucci ao cargo de diretor de comunicações da Casa Branca. Trumpista de última hora, Scaramucci viera do setor financeiro onde ganhara o apelido “The Mooch” e se tornara conhecido por um ego inversamente proporcional à estatura e um talento nato para autopromoção – isto é, uma versão em pequena escala do chefe. O reinado de The Mooch foi breve mas movimentado: assumiu fazendo juras de amor a Trump e ameaçando “matar” vazadores de informação – dentre os quais, identificou ninguém menos do que o chefe de gabinete da Casa Branca, Reince Priebus, demitido sumariamente na sequência. Já tinha provocado a renúncia de Sean Spicer, atrapalhado porta-voz e alvo dileto de sátira impiedosa dos comediantes. Determinado a melhorar a imagem do chefe na mídia e ansioso por mostrar serviço, Mooch partiu para aparições ao vivo em programas de notícia para contestar, acaloradamente, os apresentadores. Deu um passo em falso, contudo quando resolveu lançar uma diatribe recheada de impropérios contra um jornalista que acabara de noticiar jantar presidencial. Entre outras pérolas, Mooch chamou Priebus de “paranoico esquizofrênico” e acusou o estrategista-mor do governo, Steven Bannon, de praticar auto felação figurativa. Parece ter sido demais até para Trump: Mooch, o breve, foi demitido no dia seguinte. Não foram poucos os comentaristas que notaram que “Scaramucci” é uma personagem folclórica da velha Commedia dell’Arte italiana, um palhaço encrenqueiro. Os mais argutos observaram que o próprio Trump é uma personagem saída da Commedia, o bufão mulherengo Pantalone.

A estratégia Zarathustra fechou julho com ganho de 7,03%. Destaque positivo para os modelos de tendências de juros e câmbio, reversão à média de ações e arbitragem de cupom cambial. O modelo de tendências de cupom e opções de dólar apresentaram as maiores contribuições negativas no mês.

Veja os dados consolidados do fundo

3 comments

  1. Jorge, as always I enjoyed reading your carta aos cotistas. I thought that you might in turn, enjoy reading a memorandum that a group of former intelligence professionals sent to Trump regarding the so called Russian interference in the US election.
    https://consortiumnews.com/2017/07/24/intel-vets-challenge-russia-hack-evidence/
    I recently watched an excellent independent documentary about the current world situation. I also think you’d enjoy it.
    https://renegadeinc.com/four-horsemen-feature-documentary-official-version/

    Curtir

    1. Thank you. Yes, I did read about the memorandum arguing no collusion, and also one by former intelligence officers arguing it was standard Russian kompromat (https://www.nytimes.com/2017/08/02/opinion/donald-trump-russia-collusion-cia.html?smid=fb-share&_r=0) We don’t know yet. However, Don Jr’s emails leave no doubt Trump camp was eager for dirt on Clinton from shady Russians — which in itself is quite damning. Trump not big on history or classics, but beware of Russians bearing gifts a phrase that comes to mind. Will look up the documentary. Cheers.

      Curtir

      1. Jorge thanks for the reply. However you must have seen the videos of CNN reporters admitting that the whole Russia story was about ratings, if not here is the link:

        Also I find it interesting why there’s so much outrage over the alleged Russian interference when throughout the world, the country that has been involved in constant interference or warmongering in other countries, democratic or not, has been the US.
        https://www.theguardian.com/commentisfree/2014/mar/06/us-greatest-threat-to-peace-asia-survey

        Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s