Carta aos cotistas fundo quantitativo Visia Zarathustra 3 semestre 2018

Carta aos cotistas (3Q18)

Publicado por

Democracia é o pior regime, fora todos os outros” (Winston Churchill)

Resultados do Fundo

O Fundo Zarathustra rendeu 10,46% nos três primeiros trimestres de 2018, equivalente a 217% do CDI do período . O ganho do terceiro trimestre foi de 0,11% (7% do CDI no período) e foi afetado, sobretudo, pela queda da volatilidade e valorização do Real. No acumulado do ano os ganhos vieram sobretudo dos modelos de tendências juros, tendências cesta, momentum de ações e opções.

Eleições 2018 – Haddad

A DIAS DO PRIMEIRO TURNO DA ELEIÇÃO, o Brasil chega polarizado entre dois candidatos que, ao menos no papel, ocupam extremos opostos do espectro político: Jair Bolsonaro, do PSL, e Fernando Haddad do PT.

De Haddad—que, como sua antecessora Dilma Rousseff, deve sua popularidade inteiramente ao endosso do ex-presidente Lula—a pergunta a ser feita é que modelo de governo adotará: se o do primeiro mandato de seu tutor—fiscalmente austero, economicamente ortodoxo, reformista e amigável a investidores—ou o do governo Dilma—intervencionista, heterodoxo, fiscalmente expansionista e economicamente catastrófico. O programa do candidato, redigido pelo partido, aponta claramente para o segundo: prega um retorno ao desenvolvimentismo testado e reprovado no governo Dilma e promete políticas distributivistas que o Estado, quebrado pelas políticas do PT, hoje já não comporta.

Haddad, que tem mestrado em economia e entregou a prefeitura de São Paulo com dinheiro em caixa, não ignorará o contraste entre o exitoso primeiro governo Lula e a situação calamitosa legada por Dilma. Tendo, ao que indicam as pesquisas, consolidado seu lugar no segundo turno (e, com isso, provocado severa turbulência financeira) Haddad move-se nos bastidores para tranquilizar o mercado: desautorizou vozes mais heterodoxas de seu partido (notadamente, do economista Márcio Pochmann) e acenou com políticas menos populistas do que as impressas no programa. Seguindo o roteiro de do primeiro governo Lula, Haddad teria convidado Henrique Meirelles e Ilan Goldfajn—o primeiro, banqueiro central de Lula e ministro da Fazenda de Temer e o segundo, atual presidente do Banco Central—a integrarem seu governo e a ele emprestar credibilidade.

Porém a gravidade da situação econômica é hoje maior do que há 16 anos, quando Lula assumiu pela primeira vez. À época, havia um problema de endividamento externo, mas uma situação fiscal relativamente controlável. O desequilíbrio externo foi sanado graças ao boom das commodities que aconteceu no rastro da ascensão chinesa, e a situação fiscal foi controlada com a uma gestão fiscal conservadora que gerou sucessivos resultados primários. Hoje, os polos estão invertidos: a situação externa é relativamente confortável e a situação fiscal, crítica. O déficit nominal de 7% do PIB e o endividamento público, de quase 80% do PIB, exigirão longo período de contenção de despesas e uma impopular reforma da Previdência (a mesma que o PT ajudou a sabotar, no governo de Temer) apenas para reduzir o crescimento da dívida. Políticas fiscais expansionistas, distributivistas e farta concessão de crédito—razões da duradoura popularidade de Lula—são uma impossibilidade no presente. O melhor cenário provavelmente seja uma continuação do baixo crescimento do governo Temer, ao menos inicialmente. Sobre esse cenário, paira o fantasma da catástrofe do segundo governo Dilma. Tendo sido reeleita em cima de uma plataforma populista, a presidente nomeou um ministro ortodoxo com a incumbência de fazer um (moderado) ajuste fiscal. Oposição e mídia imediatamente acusaram estelionato eleitoral e a popularidade da petista despencou. Tensões internas, fogo amigo e, em última análise, a falta de apoio do próprio PT resultaram na queda do ministro e o fim do programa de ajustes. O impeachment não demorou, na esteira dos escândalos de corrupção, do aprofundamento da crise econômica e das intensas manifestações populares contra o governo.

Um eventual governo Haddad enfrentará desafios à governabilidade que nem mesmo o governo Temer—cuja legitimidade, jamais foi reconhecida pelos partidos de esquerda—enfrentou. De fato, apesar de impopular Temer não despertou paixões ou ódios (é notável a ausência de grandes manifestações contra seu governo, malgrado o “Fora Temer”) e, graças a uma exímia capacidade de articulação, conseguiu anotar impressionante série de vitórias legislativas nos seus dois anos e meio de gestão.

O PT, por outro lado, está no epicentro dos embates ideológicos que rugem nas ruas, na mídia e, sobretudo, nas redes sociais. Mais do que rejeição, o partido desperta profunda hostilidade de grande parcela da sociedade—aquela que foi às ruas em massa protestar contra os seus desmandos e crimes. Haddad, um intelectual de perfil relativamente moderado (pelos padrões do partido), relativamente intocado por escândalo, seria um nome qualificado para apaziguar ânimos e construir pontes entre facções rivais em que se dividiu a sociedade. Isto exigiria, contudo, que antes fizesse uma autocrítica—começando por reconhecer a responsabilidade das administrações petistas na atual crise. Exigiria uma expiação pública dos pecados venais do partido—incluindo a promessa de não interferir na justiça ou na investigação da Lava Jato. E, para evitar a armadilha na qual sucumbiu a presidente petista, teria de falar com franqueza, desde já, dos sacrifícios que o país terá de enfrentar. Em tempos de extremismo e polarização, porém, qual a chance de um mea culpa? Pouco ajuda a falta de disposição do PT à autocrítica ou a admitir erros. Como disse Talleyrand: “Não aprenderam nada. Não esqueceram nada”.

Eleições 2018 – Bolsonaro

Bolsonaro é visto por seus seguidores como um baluarte contra o avanço da esquerda. Sua mensagem, dura contra crime, anti-establishment, tingido de autoritarismo e nostalgia pelo regime militar, ressonou fundo numa sociedade afrontada pela corrupção e amedrontada pela violência nas grandes cidades. Sua imagem de “homem forte” está em sintonia com o zeitgeist (não foram poucos a notar semelhanças entre o fenômeno Bolsonaro e a ascensão de lideranças populistas na Hungria, Polônia, Itália, Turquia, Filipinas e, claro, EUA).

Bolsonaro também é saudado como “primeiro líder de direita popular”. Que seja popular, não resta dúvida. Mas a designação “de direita” merece escrutínio. “Direita” tem múltiplos sentidos¹ e, sem qualificação, pouco significa. As posições de Bolsonaro devem, mais propriamente, ser caracterizadas como socialmente conservadoras: a favor da família, da ordem, das tradições religiosas e valores cristãos, das forças armadas, da pátria; e geralmente contrárias a bandeiras progressistas como direitos de minorias sexuais, igualdade entre gêneros, do aborto, da restrição a armas. O ideário conservador encontra forte eco entre grande parte da sociedade brasileira e, nesse sentido, Bolsonaro pode ser considerado um legítimo representante da direita. Por outro lado, uma passada de olhos casual por seu histórico parlamentar—contra o Plano Real, contra o fim do monopólio da Petrobrás, contra as privatizações, contra a reforma da Previdência—desautoriza o rótulo “direita” no campo econômico. Até sua recente “conversão” ao liberalismo, Bolsonaro sistematicamente defendeu um ideário desenvolvimentista, intervencionista e estatista, típico dos governos militares e que mais o aproxima, entre os governos recentes, de Dilma Rousseff. A essa objeção, defensores do capitão reformado apontam para seu assessor ultraliberal, Paulo Guedes.

O programa econômico de Guedes é um sonho de consumo liberal: propõe a privatização maciça dos ativos estatais que, estima o economista, levantaria um trilhão de reais. Essa dinheirama seria usada para abater cerca de 20% da dívida pública. Fala também em reduzir e simplificar impostos, bem como cortar gastos e reformar a Previdência. Afora inflacionar o valor da venda de ativos estatais (numa hipótese otimista, talvez duzentos bilhões de reais), o programa de Guedes é constrangedoramente pobre em detalhes e implementação. Privatizar estatais—que dirá, estatais icônicas, como a Petrobrás—é uma proposição desafiadora na melhor das condições. Como obter este feito sem base parlamentar (já mencionamos que o partido de Bolsonaro, PSL, é uma nulidade política?), ou disposição para negociar com o Congresso (ue Bolsonaro equipara a transgressão moral), permanece um enigma.

Gente bem informada garante que Bolsonaro está disposto a delegar a condução da economia a Guedes. Mas suas declarações sugerem um grau de dissonância com seu guru econômico. Desconversa sobre privatizar a Petrobrás e bancos estatais, por exemplo. Não se sabe ao certo se falta ao capitão convicção liberal, ou sobra malandragem de campanha. Ao fim e ao cabo, parece evidente que a agenda ultraliberal de Guedes é um apêndice parafusado às pressas na candidatura conservadora de Bolsonaro. Lamentavelmente, liberalismo econômico não rende votos no Brasil (como sabe o Partido Novo e, antes dele, o DEM). Seu único caminho para o poder, no curto prazo, talvez seja mesmo pelo atalho de uma candidatura populista (o outro caminho, praticado por partidos como o Novo, é o da militância e demora a render frutos).

(Quase) trinta anos de democracia

As duas candidaturas que chegam como favoritas ao segundo turno causam apreensão—seja pelos pecados nunca assumidos, seja pela desconexão entre discurso e realidade, ou pela falta de propostas claras e críveis para debelar os imensos problemas que afligem a sociedade e ameaçam a economia. Uma candidatura, amparada por um partido moralmente falido e teleguiada de uma cela em Curitiba. Outra, movida por personalismo messiânico, discurso populista e virtual ausência de base partidária ou coerência ideológica. Qualquer delas, pouco lisonjeira para a democracia brasileira—que, esperávamos, chegaria a sua terceira década de vida mais consolidada e madura.


¹ “Direita” e “esquerda” é uma dicotomia que remonta à Revolução Francesa quando, no período da Assembleia Nacional, monarquistas sentavam-se à direita do rei e revolucionários, à esquerda. A esquerda, composta pela burguesia e baixa nobreza, era republicana e anticlerical; a direita, formada pela aristocracia feudal, tentava prolongar o agonizante Ancien Régime. Algumas décadas depois “direita” e “esquerda” passaram a designar Conservadores e Liberais; nesse período, democracia, capitalismo e livre mercado eram bandeiras da “esquerda” (liberais). Na transição para o século XX, “esquerda” passou a designar a esquerda radical socialista, e o capitalismo e economia de mercado passaram a ser bandeiras de “direita”. Ali, a dicotomia “direita” e “esquerda” passou a designar uma dimensão econômica, indo do socialismo à esquerda ao capitalismo, à direita. No século XXI há uma pluralidade de dimensões políticas: econômicas, sociais, ambientais, identitárias, etc. De forma que reduzi-las a um único eixo ficou anacrônico, senão obsoleto (mais apropriado seria usar uma matriz ou cubo).

Veja os dados consolidados do fundo

 

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