Carta aos Cotistas (1Q2019)

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“A cada 15 anos, o Brasil esquece o que aconteceu nos últimos 15 anos”. (Ivan Lessa)

Resultado do fundo no 1°Q 2019

O Fundo Zarathustra FICFIM teve um rendimento de -2,46% no primeiro trimestre de 2019. O desempenho pode ser atribuído, predominantemente, aos modelos de tendências single-asset. A performance desses modelos sofre em mercados com muitas oscilações de preços e sem tendência definida, como foi em fevereiro e março (por causa das idas e vindas da Reforma da Previdência). Isto, porque os modelos entram e saem de posições rapidamente (esta última característica, desejável do ponto de vista de gestão de risco) gerando uma dinâmica como a da figura abaixo: o mercado começa a subir, o modelo compra o ativo (i), o mercado reverte (ii), o modelo “zera” a posição realizando um prejuízo (iii), o modelo se posiciona na direção contrária (iv), o mercado reverte novamente e assim por diante até que, eventualmente, uma tendência se estabeleça e o modelo volte a ganhar dinheiro.  

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Durante os meses de fevereiro e março esse padrão pode ser claramente observado nos juros e na bolsa e, em menor grau, no dólar:

Vale destacar que nem todos os modelos de tendência utilizados no Zarathustra exibem esse comportamento. De fato, o modelo de tendências multi-asset possui características diferentes de entrada e saída e registrou ganho no trimestre. O modelo de opções, que atua como proteção contra fortes reversões, ajudou a trazer a performance do trimestre para terreno negativo.

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Apesar de negativo, não é possível considerar o resultado do fundo no trimestre um outlier. O Zarathustra possui como característica passar longos períodos de lado, ou marginalmente negativo, os quais são usualmente interrompidos por eventuais fortes valorizações. Nesse sentido, seguimos em nossa estratégia, que vem gerando resultados consistentes há quase 7 anos. 

Carta aos cotistas

Era uma vez, num reino longínquo, uma pequena cidade famosa pela excelência de seus restaurantes e festejada pela criatividade de sua culináriaPara lá peregrinavam gourmets de todo reino, em busca das delicadas iguarias e guloseimas produzidas por seus celebrados chefs.

Mas havia algo de podre no reino. Certo dia, três jovens e idealistas mosqueteiros do Rei (mais um quarto, juiz) souberam que um mercador de vinhos contrabandeava produto adulterado do reino vizinho. O mercador desonesto foi encarcerado numa masmorra escura. Nada como uma noite fria entre ratos e pragas para fazer um homem compuingir-se de seus atos. Arependido, o mercador entregou seus comparsas no esquema (e, como recompensa, foi solto mediante pagamento de três moedas de ouro). Uma confissão levou a outra e, breve, as masmorras estavam abarrotadas de falsários, ladrões e vigaristas — todos, repletos de informações a oferecer aos jovens mosqueteiros. Não demorou para que descobrissem um vasto esquema de contrabando, suborno e corrupção, cujos tentáculos se espalhavam por todo reino e no qual estavam envolvidos, até a medula, os restaurantes. O escândalo foi devastador. Reputações foram destruídas da noite para o dia. Chefs consagrados caíram em desgraça (alguns, condenados perpetuamente às masmorras). Restaurantes estrelados fecharam as portas e uma massa de pâtissiersboulangères, sauciers e garçons foram parar no olho da rua. A população apedrejava restaurateurs na rua. 

Longe dali um ex-condotiero, de poucas palavras e modos bruscos, observava tudo. Sua modesta taverna atendia uma freguesia de camponeses e fiéis religiosos, avessa às afetações e rapapés da corte, que lá se congregavam para beber cerveja e apreciar uma culinária despojada e honesta. O taberneiro — que passara ileso pelo escândalo — percebeu uma oportunidade de ocupar o vácuo deixado pelos restaurantes. Sua culinária simples caíra no gosto popular mas, para conquistar paladares mais refinados, seria necessário um mestre nas artes culinárias para recauchutar o velho cardápioQuis o destino que, precisamente naquele momento,um chef  de extraordinários dotes culinários estivesse a procura de um parceiro para lançar um novo restaurante, com uma proposta gastronômica diferente de tudo que o reino já vira. Assim, o chef juntou-se ao taverneiro e, juntos, abriram um novo restaurante.

Com uma campanha a princípio sem grande fanfarra, o boca-a-boca se espalhou e, para surpresa geral, o restaurante se tornou um sucesso, atraindo o público que abandonara os antigos restaurantes agora desmoralizados. O cardápio era uma improvável mistura de aperitivos de boteco, servidos pelo taberneiro, e haute-cuisine, preparada pelo chef. Mas nem tudo corria bem. Chef e taberneiro começaram a bater cabeça na cozinha. Os filhos do taberneiro, chamados a ajudar no negócio, eram inexperientes e impetuosos. Deslumbrados com o súbito sucesso do pai, semeavam discórdia entre os empregados. Um deles, soube-se depois, tinha ligações perigosas com esquemas suspeitos. Inundado pela grande demanda, o serviço começou a sofrer. Gafes sucediam-se. A clientela, outrora tão maravilhada pela novidade, começava a se desiludir. Um dia o taberneiro e o chef tiveram uma discussão acalorada. Panelas voaram, rolos foram brandidos. Enfurecido, o taberneiro livrou-se do chef. Seis meses depois, a taverna foi interditada pelos mosqueteiros por violações sanitárias.

* * * *

Muito bem: cartas de gestão (que dirá, gestão quantitativa!) talvez não comportem o gênero das fábulas morais. O que se deseja, pois, é chamar atenção para as contradições fundamentais dentro do governo Bolsonaro, visíveis desde a campanha mas que vieram à tona, com força, em março e ameaçam afundar precocemente o governo Bolsonaro. De Dilma Rousseff e Joaquim Levy, a Jango e Carvalho Pinto passando por Fernando Collor e Zélia Cardoso, o Brasil tem um longo histórico de casamentos de conveniência entre chefes de Estado e economistas, tão improváveis quanto breves. Os três primeros meses de casamento entre Jair Bolsonaro e Paulo Guedes ameaça ser mais um. 

Bolsonaro foi hábil ao se posicionar como o candidato contra a “política tradicional”, conquistando um público indignado com a corrupção endêmica dos últimos governos. A demonização da política encontrou forte eco sobretudo entre a nova geração de militantes de redes sociais, forjada no ferro e fogo dos movimentos pelo impeachment e vagamente identificada com a direita (seja lá o que entendessem por “direita”).

Esse mesmo eleitorado, que já havia canonizado o juiz Moro pela prisão do ex-presidente Lula, estava pronto para ungir Capitão Messias o algoz da Velha Política (curiosamente, em quase trinta anos de atuação parlamentar Bolsonaro nunca empunhou a bandeira da ética e honestidade na política. Raro congressista a não cair na malha da Lava Jato, foi alçado a essa condição por exclusão).

Enquanto isso, em reuniões com empresários e o mercado a portas fechadas, o futuro ministro da Economia Paulo Guedes vendia a retomada do crescimento econômico pela via da aprovação de reformas no Congresso — travadas, desde o affaire Joesley Batista. Convenientemente ignorado nessas reuniões, o fato de que o histórico parlamentar e as crenças econômicas de Bolsonaro estavam mais próximas da visão estatizante e intervencionista de sua antecessora, Dilma Rousseff, do que dos ideais liberais de Roberto Campos.

E aí residia a contradição: aprovar reformas exige votos. Conquistar votos, num sistema político multipartidário e ultra fragmentado como o brasileiro requer, senão um governo de coalizão (forma de governo, rejeitada por Bolsonaro, que envolve compartilhamento de poder em torno de um programa comum), quando menos articulação política: negociação (vale dizer, liberação de verbas para emendas) e, principalmente, diálogo. Bolsonaro, seja pelas pontes que dinamitou durante a campanha eleitoral, seja pelo temperamento autoritário ou, simplesmente, pela falta de convicção nas propostas de reforma, revelou-se singularmente incompetente para a função.

Errou quem apostou que, eleito, Bolsonaro adotaria um tom conciliador, pavimentando o caminho para a aprovação das reformas. Os primeiros três meses de governo foram uma sucessão de trapalhadas, desavenças internas, polêmicas e embates com a mídia: houve escândalo envolvendo filho do presidente, bate-bocas públicos (em geral, pelas redes sociais) entre o presidente e ministros, ministros e congresso, filhos do presidente e congresso.

Errou também quem imaginou que, eleito Bolsonaro se empenhasse pela aprovação das reformas. Enviado o projeto ao congresso, o presidente pareceu lavar as mãos e declarou que “a bola está agora com o congresso”. Em outra ocasião, referindo se à reforma da Previdência declarou: “era contra, mas seria irresponsabilidade não fazer”. Não exatamente um endosso enfático… 

O desinteresse do presidente pela articulação política, as farpas lançadas contra aliados geraram tumulto no mercado. Na segunda quinzena de março o índice Bovespa — que, dias antes, atingira a marca histórica de 100.000 pontos — desabou quase 10% em uma semana. A curva de juros, que vinha caindo graças à sinalização de afrouxo do Banco Central e à queda de juros no exterior, disparou, junto com o dólar.

Não é segredo que, em seu íntimo, Bolsonaro nunca partilhou dos ideais liberalizantes e ímpetos reformistas de seu ministro, Paulo Guedes. Que o taberneiro turrão se juntou ao chef de haute cuisine num casamento de conveniência, todos sabem. Se quiser evitar que seu governo naufrague precocemente — que dirá, prospere — convém a Bolsonaro manter a fachada de harmonia conjugal e empenhar-se pelo sucesso da agenda legislativa.

* * * *

A curva de juros americana vem apresentando comportamento que desafia explicações. Apesar do crescimento saudável da economia e baixo desemprego, no final de março a taxa de juros do título de 10 anos do Tesouro afundou a 2.35%, menor nível em mais de um ano. A curva de juros brevemente se inverteu. Isto é, a taxa de juros longa (10 anos) ficou abaixo da taxa de juros curta (3 meses). Este raro fenômeno ocorreu pela primeira vez em uma década. Todas as vezes que a curva se inverteu no passado, uma recessão logo se seguiu.


Referências

  1. https://www.infomoney.com.br/mercados/politica/noticia/7447305/exclusivo-bolsonaro-e-um-engodo-tao-estatizante-quanto-a-esquerda-diz-persio-arida
  2. https://www1.folha.uol.com.br/colunas/joel-pinheiro-da-fonseca/2019/04/brasil-paralelo.shtml
  3. https://www1.folha.uol.com.br/colunas/samuelpessoa/2019/03/parece-nao-haver-aprendizado.shtml
  4. https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/03/em-resposta-a-bolsonaro-maia-diz-que-presidente-e-quem-agride-nas-redes-sociais.shtml
  5. https://oglobo.globo.com/brasil/flavio-bolsonaro-outros-26-deputados-sao-investigados-na-area-civel-diz-procurador-geral-de-justica-23389301
  6. https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/02/bebianno-e-demitido-e-caso-dos-laranjas-do-psl-leva-a-primeira-queda-de-ministro-do-governo-bolsonaro.shtml

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